“Precisamos pensar nas pessoas quando falamos de cidades inteligentes”

“Precisamos pensar nas pessoas quando falamos de cidades inteligentes” 1
Modelo do projeto piloto Smart City Laguna (Foto: Divulgação)
Modelo do projeto piloto Smart City Laguna (Foto: Divulgação)

“Todas as smart cities até agora têm um fator em comum: um público-alvo muito rico. Algumas trabalham com ótimas tecnologias, outras têm uma mobilidade urbana fantástica, mas o foco é sempre aquele percentual mínimo de pessoas que já têm acesso a muitas coisas – e isso exclui o resto do mundo.” Na contramão dessa lógica, a CEO da Planet Smart City no Brasil, Susanna Marchioni, lidera o projeto Smart City Laguna – intitulada a “primeira cidade inteligente social do mundo”. O “social” aparece em destaque no projeto porque a ideia é ter um empreendimento acessível a diversas faixas de renda e que, além das moradias, ofereça serviços que promovam um senso de pertencimento ao local.

Com a primeira etapa já concluída, o empreendimento está sendo construído no município de São Gonçalo do Amarante, no Ceará, em uma área de 330 hectares. As soluções tecnológicas, como painéis de controle via aplicativos, coleta inteligente de resíduos e rede subterrânea de eletricidade, parecem ficar em segundo plano em relação ao desafio social que a cidade pretende atingir. “O objetivo é trazer algo que esteja realmente ao alcance de todos. E, para um projeto desse tipo, é preciso ter uma área com grande déficit habitacional e economia de escala”, explica a CEO à Época NEGÓCIOS.

Na Smart City Laguna, um lote padrão de 150 metros quadrados custa entre R$ 30 mil e R$ 40 mil. As casas variam entre R$ 97 mil e R$ 145 mil, sendo a menor com 55 metros quadrados. “Nosso conceito, um pouco mais europeu provavelmente, não é ter uma infraestrutura pensada para classe A, B, C ou D, mas sim uma infraestrutra de altíssimo padrão, independente do público-alvo”, afirma Susanna. O projeto, que tem um investimento total de US$ 50 milhões, também conta com um hub de inovação com biblioteca, cinema e cursos de inglês gratuitos. São esses projetos sociais que, segundo a CEO, irão promover o desenvolvimento do bairro como um todo. “A estrutura da cidade precisa ser igual para todos. Alguns acham que eu estou sonhando, mas não é isso. Não acho que somos todos iguais, mas acho que temos o mesmo direito de ter a mesma cidade.”

Habitação social

 

Uma vez que a infraestrutura de qualidade deve ser oferecida a todos, Susanna acredita que é preciso dar um passo além em programas de habitação social. “O Minha Casa Minha Vida foi uma das melhores coisas já feitas, mudou a vida das pessoas. Agora é preciso dar regras ao programa. No começo, claro que é melhor uma casa da faixa 1 do que nada. Mas jogar 3 mil, 4 mil casas que parecem caixinhas de frango, umas coladas às outras, com pessoas que moram na lama porque não existe rua nem serviços é perigoso”, avalia a CEO da Planet Smart City no Brasil. “Dessa forma, você não consegue envolver as pessoas na vida da cidade.”

Uma das casas da Smart City Laguna (Foto: Divulgação)
Uma das casas da Smart City Laguna (Foto: Divulgação)

O conceito de cidades inteligentes, portanto, vai além das inovações tecnológicas vistas em locais como Masdar City, nos Emirados Árabes – “onde um apartamento tem o valor de US$ 10 mil dólares por metro quadrado”. “Quando falamos de cidades inteligentes, falamos muito de tecnologia e de infraestrutura, mas o principal a ser feito é pensar nas pessoas. Ter as pessoas como centro da vida da cidade“, avalia Susanna. “O conceito de pertencimento à cidade realmente muda tudo. Educação, envolvimento e cultura transformam o contexto e resultam em segurança – e sempre falo que a cidade inteligente é, antes de tudo, uma cidade segura”, completa.

Em maior escala, a CEO da Planet Smart City no Brasil acredita que programas como o Minha Casa Minha Vida “precisam parar de pensar somente nas casas e começar a pensar nos bairros” – e aqueles que insistirem nos modelos de casas sem qualquer tipo de serviço no entorno irão perder espaço. “Quem quiser fazer a caixinha de frango daqui a dois anos não irá vender nada, felizmente. A evolução irá envolver todos, quem quer e quem não quer. Os que não quiserem, não vão vender”, afirma. “O mercado, de uma forma positiva nesse caso, vai regulamentar o futuro e o desenvolvimento das cidades.”

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